terça-feira, 22 de abril de 2014

O Voltar de um Novo Mundo

Era dia 31 e lá ia eu de volata a casa, quando cheguei foi uma sensação estranha. O ar era puro, o barulho escasso, as casas pequenas e aquele enorme frenesim de carros, pessoas, apitos, etc, desaparecera! Em apenas dezanove dias fiquei a sentir-me da cidade, e nunca saí do hospital! Ao chegar, vi casas pequenas e antigas, montes cheios de vegetação, não havia pessoas, não havia carros… “Fogo, eu realmente vivo num atraso de vida!” – foi este o me primeiro pensamento. Até a minha mãe se manifestou perante tal expressão que se apoderou da minha face.
-Que foi? Isto parece-te um atraso de vida?
Essa foi a minha reação imediata, em apenas dezanove dias, e dentro daquelas grades enormes, eu consegui começar a pensar como eles, os da cidade! Eu! Eu, a quem a poluição e os fumos arranham a traqueia, a quem o ruído deixa de ouvir e as luzes deixam de ver! Mas agora penso: “Ainda bem que vivo num atraso de vida, isto sou eu!”
A minha casa já não era minha! Ao entrar nela, senti um ar fresco de casa desabitada, o meu gatinho, a quem eu chamava de bebé, já não era mais! Ele estava enorme! Eu adoro aquele gato! Ele quase morreu e eu cuidei dele, eu fiquei de cama e ele ficou sempre comigo, deitado na minha cabeceira com as suas patinhas suaves sobre a minha cabeça.
Não era apenas a casa e a terra que já não me pertenciam, as pessoas também já não eram as mesmas! Aquelas pessoas a quem dizia, gentil e educadamente e de sorriso na cara, “Bom dia!”, sem obter uma única resposta, agora preocupavam-se comigo!
Em família, começara a cansar-me das pessoas. Não podia passar pelos cães porque se podiam atirar e cair, não podia arrastar uma cadeira porque era pesada, os bebés eram pesados, nem a escada me deixavam subir tranquilamente! Os cães têm-me um enorme respeito, mas o que me inervava mais era dizerem constantemente “Cuidado!”. Arrastar a cadeira era normal, eu tinha de me sentar não?! Os bebés até poderia passar bem sem os pegar, mas essa ideia alterou-se quando um deles me fez o gesto para o pegar e ele chorou porque eu não consegui pegá-lo como era habitual! Agora, a escada… Eu tinha de ir para o meu quarto de alguma forma e tanto pela rua como no interior só havia escada!
Cá entre nós, o que realmente me custou realmente foi o facto de ter de depender de alguém para tomar banho! Do mal a menos, porque poderia passar o resto da vida ligada a uma máquina, alimentada por sondas e depende alguém a tempo inteiro…
Uma outra coisa que me doía só de ouvir, era uma palavra que eu raramente uso, talvez porque tenho medo de a usar ou mesmo porque não a sei usar: “Coitadinha”. Mas… coitadinha porquê? Agora, em vez de quatro tumores tenho apenas dois, andava sobre os meus próprios pés, fazia quase tudo sozinha, levo uma vida completamente normal e… sou coitadinha? Se tinha quatro tumores e não o era, porque é que o sou com apenas dois? A minha resposta a essa forma de me abordar das pessoas era muito fácil e simples:
-Eu não sou coitadinha, estive doente toda a vida e não o era, agora levo a minha vida normal e não o sou. Tudo o que me aconteceu teve um propósito, nada foi por acaso, tudo na vida tem um sentido. Se Ele o quis assim para mim, Ele saberá o porquê.
Eu estava de volta e ansiosa por entrar na minha igreja, parecia enorme, sentia-me uma formiga lá dentro (como se eu soubesse como é que uma formiga se sente!). Pus-me a olhar a Cruz e a refletir comigo. “Ele foi torturado, crucificado, sofreu e morreu. Era isso que estava escrito para Ele, foi essa a vontade de Seu Pai: sofrer pela remissão dos pecadores. O que ele ia sofrer estava escrito e tinha um sentido e Ele não era coitadinho! Assim, eu também não o sou! Ele sofreu muito mais que eu, não existindo tal comparação. Sendo assim, também o pouco pelo qual passei que seja oferecido pelos meus pecados!”
Tinha quatro tumores sem saber que os tinha, era feliz, sempre fui feliz, teria de andar triste e de cabeça baixa agora? Não, se eu era feliz antes, agora devo sê-lo em dobro. Passei pelo qua passei e esto aqui de pé, não é razão suficiente para estar feliz?

Voltei e tinha apenas uma certeza, dia 8 de Agosto estaria de volta à cidade, que agora também me pertencia!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dezanove Dias Passados

Cheguei a um certo ponto em que dei comigo farta de estar no hospital, não é que me tratassem mal, antes pelo contrário. Em parte até gostava do hospital, não posso reclamar muito, afinal era a única, num hospital tão grande, que podia ir até ao jardim quando quisesse, quantas vezes quisesse.
Ouvi dizer: “Marta, não sejas apressada, aguenta-te por cá o máximo de tempo que conseguires, olha que eu sei o que te estou a dizer!” Vindo da pessoa que era com certeza era verdade e vejo que tinha toda a razão!
Já ninguém aguentava ver-me lá, empregadas de limpeza, auxiliares, enfermeiras, etc. Aparentemente, eu estava bem. Houve um dia que a auxiliar até procurou pelo médico para questioná-lo sobre o porquê de eu não ter alta.
Sempre disse que eu ia ficar por lá para fechar o mês e assim foi. Sei que o médico passou por lá dia 26 ou 27 à noite veio falar comigo e as enfermeiras diziam que os meus papéis da alta já estavam passados desde aí, só que não tinha dado a autorização para eu poder sair.
Estava desejosa de sair mas, por muito pouca vontade que tivesse, tinha de ficar e ter a certeza que ficava boa.
Terça-feira dia 30, pela tarde e como sempre, ia eu para a capela e cruzei-me com o médico:
- Onde é que as meninas vão?
- Olhe doutor vamos à missa, mas precisa de falar connosco? – questionou-lhe a minha mãe.
- Não, era para mandá-la embora, mas vai lá à missa. Quando voltares se tiveres na cama um canudo com um lacinho vermelho já sabes que podes ir embora. Mas se calhar é melhor só ires amanhã, temos ainda que ver a questão dos neurinomas.
Depois disto fiquei toda feliz, é normal ia-me embora da prisão, mas mesmo assim o médio conseguiu deixar-me a pensar o que raio teria eu! Neurinomas? O que raio era isso? Mais tumores?
Sei que me queria vir embora, e que a minha roupa já lá estava, aliás tinha a casa quase toda lá! Em dezoito dias a casa foi-se mudando, lentamente, para a Rua Jacinta Marto, em Lisboa. Até me mandaram uns sapatinhos todos giros, que para serem contraditórios, como tudo naqueles dias, estavam um tamanho a cima!
Eu fui para a missa e quando cheguei nada de canudo!
Passou o dia e finalmente o dia 31! Tomei o pequeno-almoço, o estranho banho de todos os dias, voltei para a cama, acho que antes do almoço ainda fui passear ao jardim, nada muito demorado porque segundo a minha mãe não poderíamos demorar se não o médico aparecia eu não estava e depois ainda não era nesse dia que voltava para casa.
O dia estava bastante quente e bem bonito, estávamos em pleno Verão!
Depois do meu passeio, voltei para o quarto e nada de médico. Até que o cirurgião ajudante decidiu vir-me fazer também uma visitinha.
- O Dr. Amets não pode vir, parece que alguém vai para casa. Tens aqui este papelinho com a marcação da consulta, dás a mãe. O papel da alta, o Dr. dá-vos na consulta. Já podes ir para casa.
Almocei, vesti a minha roupinha e as enfermeiras questionavam-me onde ia. Sim, o Dr. Esteve lá falou com as enfermeiras, mas esqueceu-se de lhes dizer que eu já poderia sair! Mas bom, a senhora enfermeira deu-me o meu boletim de Raio X e a TAC que tinha feito.

Dezanove dias depois estava eu de volta à A8 a caminho de casa!

terça-feira, 11 de março de 2014

Voluntariado no Hospital

  Algumas vezes, na enfermaria, recebi uma visita que era comum a todos os meninos da unidade. Eram as voluntárias que estavam ali para me verem e saberem como estava. Pessoas que partilhavam umas horas da sua semana connosco e que tentavam colocar-nos pequenos sorrisos, ou que apenas nos iam fazer companhia na falta de outra. Sim, havia meninos que não eram como eu, não tinham a sorte de ter a mãe sempre com eles e não tinham a sorte de ter uma visita todos os dias. Na verdade eu sempre fui uma sortuda dentro daquele hospital!
  Recordo-me da visita de quatro voluntárias, pelo menos se havia mais voluntárias a passar pela secção de neurologia ou eu estava a dormir ou então foram só mesmo estas quatro que me marcaram verdadeiramente. Digo que me deixaram marcas, mas nem todas foram as melhores, o que importa é que fizeram o melhor que podiam e isso é de dar valor.
  Eram quatro mulheres, andavam sempre em trios, nuns dias vinham três, noutro vinham outras três. Uma delas chamava-se Marta e foi essa que não me marcou tão positivamente, e não, não foi por ter o mesmo nome que eu, porque disso até gosto não há muitas Martas mas naquela secção até havia algumas. Até parece que neurologia é um mal de Martas! Para além da Marta havia mais duas senhoras que andam sempre juntas e ainda uma quarta que, para além de andarem em trios, andava sempre um pouco retirada das outras, esta última marcou-me verdadeiramente.
  As duas senhoras que andavam sempre juntas podiam não ser as melhores pessoas a lidar com os pacientes mais velhos, mas faziam um imenso esforço para nos agradaram, mas com os pequeninos ou com os que tinham problemas neurológicos mais graves eram excelentes. Enquanto que aos mais velhos ofereciam livros para ler, aos pequenos falavam bastante.
  A outra senhora passava bastante tempo comigo, mais comigo do que com todos os outros, quando ia fazer as visitas. Era professora de matemática, logo aí conseguimos criar laços, ela professora de matemática e eu a gostar de matemática (sim sou mesmo fora do normal, eu gosto de matemática, é normal dá-me cabo da cabeça ter de pensar naqueles problemas e disso eu gosto bastante!). Ficava comigo quando a minha mãe não estava. Sentava-se ali pertinho, conversava comigo sobre mim, sobre o que gosto de fazer, sobre a escola, sobre ela, sobre matemática e brincava comigo pegando na minha bonequinha.
  A Marta não me deixou tão boa impressão quanto as outras voluntárias. Ela entrava, perguntava como estava, se precisava de alguma coisa e sentava-se ali a beira da cama a olhar. Por vexes com pena, por outras num mundo completamente distante do meu… Fazia isto à beira de todos os pacientes, provavelmente fazia o melhor que podia e disso eu não me posso queixar, era tempo dela que perdia connosco.
  Lembro-me de outra voluntária, não sei ao certo o que ela fazia no hospital, mas sei que ela ficava na capela e preparava tudo para as celebrações do capelão e ainda lia. Era ela quem cuidava da capela.

  Depois de ver as voluntárias, enquanto estive internada, senti um bichinho enorme de começar a fazer o mesmo tipo de voluntariado. Por enquanto ainda não o posso fazer, uma vez que sou menor de idade, mas assim que atingira maioridade eu faço intenções de passar as minhas férias a fazer voluntariado no hospital de Dona Estefânia, na secção de neurologia e ortopedia. Foi a minha casa durante muitos dias e sei que a casa de muitos meninos e muitos pais e sei também que o mínimo gesto lhes fará a diferença durante a estadia no hospital…

sexta-feira, 7 de março de 2014

(Des)motivação

  Durante o tempo que passei na “minha casa de férias”, a motivação nunca era para aquilo que devia. Devia estar motivada para os exercícios diários e para isso nunca estava. Começava os dias pensando mais positivamente do que aquilo que, normalmente, um doente pensa. Acordava e mesmo que não tivesse motivos fazia um esboço daquilo que era um potencial sorriso. Mentira, eu tinha motivos para sorrir, mais que não fosse o simples facto de estar viva. Pouco importava se ia voltar a andar, já tinha asa minhas memórias para voltar a passear por entre sonhos e ilusões. Se nunca estive motivada para as coisas que devia estar motivada, a culpa é de quem me acompanhava e há um exemplo muito concreto que o demonstra.

  Acordava e pensava num certo bebé. Como é possível haver coisas que se tornam perfeitas no meio de tanta perfeição? Eu não sei sobre isso e penso que mais ninguém o saberá. Não sei, posso estar errada. Também não sei explicar o porquê de sentir isso, apenas sei que sobre mim pairava uma enorme alegria ao pensar naquele pequeno ser de bochechinhas redondinhas e gordas. Era nisto que pensava todos os dias, pensava em só poder voltar à igreja e mesmo apenas passar pela capela do hospital. Não sei se são cristãos, nem qual a vossa ideia de Deus. Eu creio Nele, tenho fé e sentia que devia agradecer-Lhe. Perguntam-se o que queria eu agradecer se nem conseguia andar? Eu explico. É que nem tudo é bom, nem tudo é mau. Eu não sentia as pernas, mas em contrapartida foi possível fazer a remoção total dos tumores e em vez de duas cirurgias tudo se resolveu com apenas uma. Olhar para todas aquelas pessoas à minha volta, médicos, enfermeiros, auxiliares e até a simples empregada de limpeza, todos eram tão bons que sentia a necessidade de nunca ir abaixo, por mim, por ele e por todos eles. Motivava-me o facto de haver tanta gente que se preocupava comigo e que corriam para mim à mínima palavra que proferisse.
  Como tudo tem um lado oposto, também haviam coisas que me desmotivavam. Dou o simples exemplo da fisioterapeuta na UCIP. Eu odiava a fisioterapia, eu todos os dias chorava por causa da fisioterapeuta, eu tinha medo de quando a minha mãe não estava para ver o que ela dizia. Chorava, chorava, chorava. Tentava fazer os exercícios e se não conseguia fazê-los levava com uma percentagem de agressividade que me fazia chorar. Com o enfermeiro João era diferente, ele sentava-se ao pé de mim e quem chorava era ele. Assim que o tabuleiro chegou com o meu lanche, a mãe preparou o pão e ele pôs o pão na minha mão direita e ia ajudando a minha mão a levar o pão à boca. Isso sim motivava-me.
  Ao passar para a enfermaria tive medo de começar a fisioterapia, as a fisioterapeuta era um anjo. Se eu não conseguia fazer os exercícios ela acalmava-me e encontrava sempre forma de eu não perder a vontade de os fazer. Sinceramente eu só fazia os exercícios à frente dela, os que deixava para fim de semana eu nunca os fazia, porém as minhas melhoras eram notáveis de dia para dia. Ela dizia que se continuasse assim eu já não precisava dela para nada e que depois ia para o desemprego. Quando comecei a andar passei para o ginásio da fisiatria e aí fiz questão que a outra fisioterapeuta visse como voltei a andar e como estava a minha mão direita, para que visse bem que eu não precisava de aprender a escrever com a mão esquerda. 
  Eu sempre soube que voltaria ao normal, a exigência nem sempre supera a motivação.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Amigos Para a Vida

  O tempo que estive no hospital, creio que encontrei dois novos amigos, fora os outros! Um deles veio numa visita a pedido meu, mesmo sem saber quem viria! (Já referi o nome atrás, não voltarei a fazê-lo por uma questão lógica, mas dá para entender quem é!) Nessa noite deixou-me bem aconchegadinha com a figura daquela senhora junto ao peito. Dizem que faz milagres, eu não sei, a verdade é que tem um elevado número de pessoas, a quem se pode chamar de seguidores e eu considero-me um deles. Digo isto, porque à Eira correm todos os meses centenas de pessoas só para o verem. Não sei se o senhor faz ou não milagres, a verdade é que depois de me deixar aconchegadinha e pronta para a minha última noite dolorosa, dirigiu-se a uma bebé cabo-verdiana, se não estou em erro, que estava muito mal e em coma induzido e deu-lhe a bênção. No dia seguinte a menina estava bem, fora do coma e parecia um passarinho!
  O meu segundo amigo é capelão do hospital, o Pe. Carlos Azevedo, que eu faço questão de visitar sempre que vou ao hospital.
  Assim que comecei a andar, fiz questão de começar a ir à missa. E assim foi no dia seguinte comecei a ir. No final da missa, o padre veio falar comigo, disse que já tinha ouvido falar muito de mim (a minha grande questão é quem não ouviu falar de mim naquela casa?!). Mostrou-se triste por não ter sido ele a fazer-me o aconchego naquela noite, mas quando soube quem o fez mostrou-se bastante satisfeito por não ter atendido o telefone.
  - Aquele homem é uma paz de alma, uma pessoa até parece que levanta voo com aquela paz.
  Estivemos cerca de dez minutos a falar.
  - És de onde? - perguntou.~
  - Torres Vedras. 
  - Hum... e andas em que escola?
  - Externato de Penafirme...
  - Então e não há lá ninguém igual a mim?
  Eu já tinha reparado e sim, de facto são bastante parecidos quase tão parecidos quanto os gémeos, mas são apenas irmãos.
  - Então e foste operada a quê?
  - À cervical.
  - Sabes Marta, nós temos muito em comum - e nesse momento voltou-se de costas de modo a que lhe olhasse para a cervical- E também fui operado ao mesmo que tu!
  Ao deparar-me com aquela situação fiquei um pouco chocada, como é que aparece assim do nada tão perto de mim e de tão perto de mim exatamente com o mesmo problema? Depois senti ainda mais força, se ele ficou bem eu também iria ficar!
  Continuei a ir à missa, tantos dias quantos havia, incluindo o dia 27 de Julho, era a primeira comunhão de uma enfermeira e a bênção das famílias.
  Ao ir pedir a bênção, e antes de me dar, olhou para mim com aquele sorriso único e disse:
  - És terrível, tinhas de cá estar para a bênção das famílias. Já viste quem está ali? É o meu irmão!
  Nesse dia senti-me em casa!

O Tão Esperado Dia

  Neste dia, ao "acordar" (e meto as aspas porque só dormi verdadeiramente na primeira noite!) aconteceu o contrário do esperado. Acordei, levantei-me, tomei o meu estranho banho de todos os dias, tomei o pequeno almoço, fui passear ao jardim, voltei para o quarto e nada! Nem uma pequena gota atrevida o suficiente para me atravessar a face, um pouco a medo! Estranho, porque isso acontecia a maior parte dos dias desde que me sinto mesmo bem e naquele dia isso deveria mesmo ter acontecido, era o dia que pior me sentia. Aquele dia em parte também era meu. E era meu porque em parte me pertencem. Pertencem-me porque pertencem ao meu coração e à minha existência. 
  O facto de eu não poder passar as setas da Estefânia nunca deveria ter sido motivo de pensamento de desistência. Ah, mas parte de mim também estava feliz, não era apenas a revolta que habitava dentro de mim. 
  Havia um pequeno grande motivo para eu ter força e posso dizer que ele foi uma parte muito importante na minha recuperação. Se antes já era tornou-se muito mais no momento daquele pequeno grande gesto. Esse também era o seu dia. Por ele estava feliz. Havia outras duas pessoas que nesse dia me deixavam feliz. Esse foi verdadeiramente o dia deles, o dia de uma família mostrar e unir, mais uma vez, todo o amor que há dentro deles.
  Adiar por não estar presente é uma falsa questão. Eu estive sempre presente. Desde estar na mente dos meus, a estar na mente deles, até ao ponto de ter deixado tudo pronto com todo o amor que há em mim. Posso dizer que me custou muito o facto de não estar presente fisicamente, mas mesmo assim fizeram questão que estivesse presente.
  O relógio quase não andava era hora de jantar. Toca o telefone.
  - Então já és uma mulher casada? - perguntei.
  - Já! -  do outro lado.
  - Qual é a sensação?
  - É boa! - com uma voz bastante feliz - A mãe está aí?
  - Não, foi jantar.
  - Eu ligo mais tarde.
  Confesso que houve uma certa desconfiança perante esta pequena conversa.
   Estava eu a jantar e tive de interromper para fazer mais uma visita ao jardim, estranhamente a meio do jantar, pois "só uma ida ao jardim". Desci a escadaria (sim eu não gostava ter de usar o elevador!), cheguei à entrada do hospital e tive de esperar sensivelmente dez minutos e lá vinham eles todos felizes. A minha mãe pensava que eu ia chorar e as lágrimas fugiram-lhe foi a ela!
  Dei por mim com um bouquet igual ao da noiva, nas mãos.
  - Mas eu só pedi um daqueles raminhos que se metem nos bancos!
  Consegui que os meus amigos fossem tocar, e eu não! Comprei o vestido três meses antes e não o usei! Marquei o cabeleireiro e agora nem suporto que me mexam na cabeça! Não fui, mas estive lá!
  - Ah, ganhaste o ramo da noiva? Agora vais ter de casar n'um ano se não vais ter azar! - Aquele sotaque espanhol dá cabo de mim!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Doutores Palhaço

        Ao ouvir aquelas palavras o médico ficou com um brilho especial nos olhos e pediu para que andasse para ele. Ao cruzar-se com a minha mãe, num dos corredores, manifestou o seu espanto:
  - Nem sabe o que aconteceu à sua filha!
  - O que é que lhe aconteceu doutor?
  - A sua filha andou para mim!
  Esta noite todos dormimos bem, quer dizer, na medida dos possíveis!
  E no dia seguinte houve festa logo pela manhã! E lá vem a boa disposição pelo quarto dentro! Super Doutora Ginjação e Doutor Batota, a minha segunda visita dos doutores palhaço (Desde já um muito obrigada à Operação Nariz Vermelho por nos colocar um enorme sorriso nos lábios!). Desta vez a visita teve direito a foto:

 As minhas melhoras eram notáveis a olho nu, era dia 24 e já conseguia fazer quase tudo sozinha. Estes dias tornam-se angustiantes porque eu sinto-me perfeitamente bem e continuo internada...
  Quinta feira e recebo a terceira visita dos doutores palhaço, mas desta vez desiludi-me. Olhei pela janela e via alegria chegar por entre risos e brincadeiras, saltitando pelo corredor com as enfermeiras. Quando chegaram à sala das enfermeiras e olharam para o quadro onde está os nossos nomes, a cama e as informações sobre o que temos, um dos doutores tirou a batatinha e olhou para mim com ar de admiração. Palhaço sem batatinha não é palhaço!
  A festa veio a seguir:
  - Doutor adivinha o nome da Marta!
  Pôs as mãos na cabeça e começou a fazes movimentos circulares e ia dizendo repetidamente "o nome da Marta"
  - Ah, já sei! É Joana!
  - Não burro! Adivinha o nome da Marta! - disse o outro.
  Voltamos ao mesmo ritual ate que:
  - Ah, já sei! É Filipa!
  - Também - disse eu.
  - Pronto o nome da Marta é Joana Filipa Também!
  Despediram-se e foram embora.
  Já era dia 25 e estava farta de lá estar, mas não posso reclamar muito, eu era a única paciente do hospital que fazia as três visitas diárias ao jardim!
  Já era quase dia 27 e eu começava a ver a minha vida a andar para trás, no dia 26 à noite eu já andava bem sozinha, estava sem qualquer tipo de medicação, já tinha passado o sacrifício de tirar os malditos pontos e fazia tudo sozinha! O médico veio ter comigo, estava eu sentada na beira da cama de pernas cruzadas enquanto que a minha mãe tentava jogar solitário spider:
  - Então como te sentes?
  - ótima.
  - Queres ir para casa não é? Olha lá a Ana disse que amanhã tens um casamento muito importante. Se tivesses dito antes tinhas ido para casa. Agora já não podes... A Ana era auxiliar na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Notícia aos Amigos

  Nesse mesmo Domingo em que recebi as minhas belas visitas, levaram-me o computador e finalmente ao fim de algumas semanas poderia dizer a todos que estava viva e ainda tive direito a um miminho muito especial que recordarei com todo o carinho!
  Quando finalmente consegui pegar no computador e escrever aos meus amigos, nesse mesmo dia, decidi alegrar a notícia que para eles era terrível e para mim apenas uma banalidade do mundo da ciência. Aos meus amigos enviei:
  "Cucu é só para dizer que fui operada a dois tumores fofinhos na cervical, que me estavam a estrangular a medula e me prendeu os membros. Supostamente uma operação de alto risco onde eu deveria ter ficado, segundo o neurocirurgião, tetraplégica, mas sou tão ruim que já ando e nem passou uma semana". Recordo que levei um quarto de hora a escrever estas poucas linhas.
   Ao maestro, professor e amigo, no dia 23, enviei:
  "Bem era para dizer que não vale a pena mandar aquilo do aleluia que ela decidiu mudar. Na realidade nem sei se vou. Estou internada no Hospital Dona Estefânia, fui operada a dois tumores na cervical que me prenderam o movimento do lado direito do corpo e o lado esquerdo a começar. Agora já está bem e já consigo andar. Os médicos não tinham esperanças na minha recuperação e esperavam mesmo que deixasse de andar. Mas no domingo levantei-me da cama e comecei a andar, agora chamam-me Lázaro! Enfim, até setembro!" O que levei agora dois minutos a escrever, naquele dia, demorei trinta.
  Só depois vi, este e-mail teve resposta, uma resposta de alguém que ficou perplexo ao ler o que tinha escrito. "A miúda só pode estar a brincar!", "Ela leva a vida a brincar!", "Não, ela não ia brincar com uma coisa tão grave!".
  Dia 24, a mãe deixou-me no quarto e foi almoçar, aproveitei para fechar os olhos e descansar um pouco visto que só conseguia dormir de dia! Fechei os olhos, mas alguns minutos depois algo me disse que deveria abrir os olhos e assim foi, abri os olhos e olhei para o corredor e aí vinha ele, com o seu ar meio perplexo sem saber se era realidade ou se estava meramente a sonhar. E o maestro chegara. Sentou-se a beira da minha cama e logo foi repreendido. Uma das melhores visitas, não julgava que o fosse fazer, mas estava no e-mail, aquele que não vi! Veio por duas vezes e falámos dos projetos que teríamos a desenvolver este ano letivo e ainda me recomendou um livro abordando-o resumidamente "O Papalagui", todos deveríamos ler. Estava bastante entusiasmado com a leitura o que eu não sabia é que naquela cabeça estava programado um concerto que vamos fazer brevemente, eu já devia esperar! Afinal, ao longo destes sete anos aquele homem tem sempre mais para fazer! Das minhas visitas, sem dúvida das melhores! É sempre bom ouvir falar de música especialmente quando alguém maluquinho como eu acorda de uma operação e a primeira coisa a fazer é ver se consegue cantar!
  Estes quatro dias foram sem dúvida os melhores, mas já começava a fartar!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os Primeiros Dias na Enfermaria

 Quinta-feira dia 18 de Julho. Três dias depois da operação foi o momento ideal para passar para a enfermaria. 
  Para passar da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos para o serviço de Neurologia/Ortopedia fui transportada numa maca. Na noite anterior o meu corpo começou  a dar mais sinais de movimento, para me voltar na cama já não foi necessária a ajuda de um enfermeiro. Chegada ao meu novo quarto tiveram de me trocar de cama, mas claro, mais uma vez não tinham força para me pegarem, então deslizei entre as camas e tentativas de empurrar-me para a cama.
  Cheguei à enfermaria e estavam lá três meninos. Bolas, eu era a única rapariga! Um menino de 12 anos com anemia e com outro problema na coluna, que já lá estava à algum tempo, outro de 4 anos que foi operado ao nariz, se não estou em erro, e um outro menino que já tinha ouvido falar na UCIP. Este último tinha caído de um cavalo e danificou um rim.
  Estava sempre quieta na cama, contava aos outros o que me tinha acontecido e recebi a primeira visita da fisioterapeuta e assim foi o meu primeiro dia.
  O segundo dia, sexta-feira, a fisioterapeuta foi-me visitar e pôs-me de pé junto à cama com uma cadeira atrás. Os exercícios para o fim de semana seriam: fazer dois  ciclos de dez elevações da bacia, elevar os braços à cabeça (o braço esquerdo estava a ficar mesmo bom e o direito já dava mais sinais) e pôr me ao lado da cama com uma cadeira e sentar-me e levantar. Estes exercícios eram apenas para o meu corpo não estar parado. Para ser franca durante o fim de semana não fiz exercícios nenhuns, eu sentia-me cansada, com um peso enorme nas pernas, não conseguia andar, não me aguentava de pé. Conclusão só fiz exercícios na presença da fisioterapeuta. Mas sabem? A vontade de andar era superior a tudo o resto.
  No domingo o meu médico apareceu e disse que tinha uma boa notícia! Iam-me remover os medicamentos pelo sangue e ia passar a fazer medicação via oral e a boa notícia: Eu podia ir de cadeira de rodas até à rua! Era a única paciente a ir à rua! E assim foi, cadeirinha de rodas e rua, mas era trepidação de mais, por isso o passeio durou 15 minutos. Cheguei à secção e o médico repreendeu-me dizendo que era pouco tempo que deveria voltar para a rua. Explicámos-lhe a situação e ele compreendeu. Entrei no quarto e a minha mãe perguntou se eu queria ir à janela, mas eu não conseguia andar! Qual quê! Peguei em mim e no chumbo que tinha nas pernas e fui até à janela. Depois da janela? Para a rua, claro! E nesse dia tive as primeiras visitas, fui eu mesma buscá-las pelo meu próprio pé!
  Dia seguinte e o doutor apareceu à noite para gozar com a minha gola, como já tinha hábito:
  - Doutor, já consigo andar!