terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Doutores Palhaço

        Ao ouvir aquelas palavras o médico ficou com um brilho especial nos olhos e pediu para que andasse para ele. Ao cruzar-se com a minha mãe, num dos corredores, manifestou o seu espanto:
  - Nem sabe o que aconteceu à sua filha!
  - O que é que lhe aconteceu doutor?
  - A sua filha andou para mim!
  Esta noite todos dormimos bem, quer dizer, na medida dos possíveis!
  E no dia seguinte houve festa logo pela manhã! E lá vem a boa disposição pelo quarto dentro! Super Doutora Ginjação e Doutor Batota, a minha segunda visita dos doutores palhaço (Desde já um muito obrigada à Operação Nariz Vermelho por nos colocar um enorme sorriso nos lábios!). Desta vez a visita teve direito a foto:

 As minhas melhoras eram notáveis a olho nu, era dia 24 e já conseguia fazer quase tudo sozinha. Estes dias tornam-se angustiantes porque eu sinto-me perfeitamente bem e continuo internada...
  Quinta feira e recebo a terceira visita dos doutores palhaço, mas desta vez desiludi-me. Olhei pela janela e via alegria chegar por entre risos e brincadeiras, saltitando pelo corredor com as enfermeiras. Quando chegaram à sala das enfermeiras e olharam para o quadro onde está os nossos nomes, a cama e as informações sobre o que temos, um dos doutores tirou a batatinha e olhou para mim com ar de admiração. Palhaço sem batatinha não é palhaço!
  A festa veio a seguir:
  - Doutor adivinha o nome da Marta!
  Pôs as mãos na cabeça e começou a fazes movimentos circulares e ia dizendo repetidamente "o nome da Marta"
  - Ah, já sei! É Joana!
  - Não burro! Adivinha o nome da Marta! - disse o outro.
  Voltamos ao mesmo ritual ate que:
  - Ah, já sei! É Filipa!
  - Também - disse eu.
  - Pronto o nome da Marta é Joana Filipa Também!
  Despediram-se e foram embora.
  Já era dia 25 e estava farta de lá estar, mas não posso reclamar muito, eu era a única paciente do hospital que fazia as três visitas diárias ao jardim!
  Já era quase dia 27 e eu começava a ver a minha vida a andar para trás, no dia 26 à noite eu já andava bem sozinha, estava sem qualquer tipo de medicação, já tinha passado o sacrifício de tirar os malditos pontos e fazia tudo sozinha! O médico veio ter comigo, estava eu sentada na beira da cama de pernas cruzadas enquanto que a minha mãe tentava jogar solitário spider:
  - Então como te sentes?
  - ótima.
  - Queres ir para casa não é? Olha lá a Ana disse que amanhã tens um casamento muito importante. Se tivesses dito antes tinhas ido para casa. Agora já não podes... A Ana era auxiliar na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Notícia aos Amigos

  Nesse mesmo Domingo em que recebi as minhas belas visitas, levaram-me o computador e finalmente ao fim de algumas semanas poderia dizer a todos que estava viva e ainda tive direito a um miminho muito especial que recordarei com todo o carinho!
  Quando finalmente consegui pegar no computador e escrever aos meus amigos, nesse mesmo dia, decidi alegrar a notícia que para eles era terrível e para mim apenas uma banalidade do mundo da ciência. Aos meus amigos enviei:
  "Cucu é só para dizer que fui operada a dois tumores fofinhos na cervical, que me estavam a estrangular a medula e me prendeu os membros. Supostamente uma operação de alto risco onde eu deveria ter ficado, segundo o neurocirurgião, tetraplégica, mas sou tão ruim que já ando e nem passou uma semana". Recordo que levei um quarto de hora a escrever estas poucas linhas.
   Ao maestro, professor e amigo, no dia 23, enviei:
  "Bem era para dizer que não vale a pena mandar aquilo do aleluia que ela decidiu mudar. Na realidade nem sei se vou. Estou internada no Hospital Dona Estefânia, fui operada a dois tumores na cervical que me prenderam o movimento do lado direito do corpo e o lado esquerdo a começar. Agora já está bem e já consigo andar. Os médicos não tinham esperanças na minha recuperação e esperavam mesmo que deixasse de andar. Mas no domingo levantei-me da cama e comecei a andar, agora chamam-me Lázaro! Enfim, até setembro!" O que levei agora dois minutos a escrever, naquele dia, demorei trinta.
  Só depois vi, este e-mail teve resposta, uma resposta de alguém que ficou perplexo ao ler o que tinha escrito. "A miúda só pode estar a brincar!", "Ela leva a vida a brincar!", "Não, ela não ia brincar com uma coisa tão grave!".
  Dia 24, a mãe deixou-me no quarto e foi almoçar, aproveitei para fechar os olhos e descansar um pouco visto que só conseguia dormir de dia! Fechei os olhos, mas alguns minutos depois algo me disse que deveria abrir os olhos e assim foi, abri os olhos e olhei para o corredor e aí vinha ele, com o seu ar meio perplexo sem saber se era realidade ou se estava meramente a sonhar. E o maestro chegara. Sentou-se a beira da minha cama e logo foi repreendido. Uma das melhores visitas, não julgava que o fosse fazer, mas estava no e-mail, aquele que não vi! Veio por duas vezes e falámos dos projetos que teríamos a desenvolver este ano letivo e ainda me recomendou um livro abordando-o resumidamente "O Papalagui", todos deveríamos ler. Estava bastante entusiasmado com a leitura o que eu não sabia é que naquela cabeça estava programado um concerto que vamos fazer brevemente, eu já devia esperar! Afinal, ao longo destes sete anos aquele homem tem sempre mais para fazer! Das minhas visitas, sem dúvida das melhores! É sempre bom ouvir falar de música especialmente quando alguém maluquinho como eu acorda de uma operação e a primeira coisa a fazer é ver se consegue cantar!
  Estes quatro dias foram sem dúvida os melhores, mas já começava a fartar!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os Primeiros Dias na Enfermaria

 Quinta-feira dia 18 de Julho. Três dias depois da operação foi o momento ideal para passar para a enfermaria. 
  Para passar da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos para o serviço de Neurologia/Ortopedia fui transportada numa maca. Na noite anterior o meu corpo começou  a dar mais sinais de movimento, para me voltar na cama já não foi necessária a ajuda de um enfermeiro. Chegada ao meu novo quarto tiveram de me trocar de cama, mas claro, mais uma vez não tinham força para me pegarem, então deslizei entre as camas e tentativas de empurrar-me para a cama.
  Cheguei à enfermaria e estavam lá três meninos. Bolas, eu era a única rapariga! Um menino de 12 anos com anemia e com outro problema na coluna, que já lá estava à algum tempo, outro de 4 anos que foi operado ao nariz, se não estou em erro, e um outro menino que já tinha ouvido falar na UCIP. Este último tinha caído de um cavalo e danificou um rim.
  Estava sempre quieta na cama, contava aos outros o que me tinha acontecido e recebi a primeira visita da fisioterapeuta e assim foi o meu primeiro dia.
  O segundo dia, sexta-feira, a fisioterapeuta foi-me visitar e pôs-me de pé junto à cama com uma cadeira atrás. Os exercícios para o fim de semana seriam: fazer dois  ciclos de dez elevações da bacia, elevar os braços à cabeça (o braço esquerdo estava a ficar mesmo bom e o direito já dava mais sinais) e pôr me ao lado da cama com uma cadeira e sentar-me e levantar. Estes exercícios eram apenas para o meu corpo não estar parado. Para ser franca durante o fim de semana não fiz exercícios nenhuns, eu sentia-me cansada, com um peso enorme nas pernas, não conseguia andar, não me aguentava de pé. Conclusão só fiz exercícios na presença da fisioterapeuta. Mas sabem? A vontade de andar era superior a tudo o resto.
  No domingo o meu médico apareceu e disse que tinha uma boa notícia! Iam-me remover os medicamentos pelo sangue e ia passar a fazer medicação via oral e a boa notícia: Eu podia ir de cadeira de rodas até à rua! Era a única paciente a ir à rua! E assim foi, cadeirinha de rodas e rua, mas era trepidação de mais, por isso o passeio durou 15 minutos. Cheguei à secção e o médico repreendeu-me dizendo que era pouco tempo que deveria voltar para a rua. Explicámos-lhe a situação e ele compreendeu. Entrei no quarto e a minha mãe perguntou se eu queria ir à janela, mas eu não conseguia andar! Qual quê! Peguei em mim e no chumbo que tinha nas pernas e fui até à janela. Depois da janela? Para a rua, claro! E nesse dia tive as primeiras visitas, fui eu mesma buscá-las pelo meu próprio pé!
  Dia seguinte e o doutor apareceu à noite para gozar com a minha gola, como já tinha hábito:
  - Doutor, já consigo andar!