sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Amigos Para a Vida

  O tempo que estive no hospital, creio que encontrei dois novos amigos, fora os outros! Um deles veio numa visita a pedido meu, mesmo sem saber quem viria! (Já referi o nome atrás, não voltarei a fazê-lo por uma questão lógica, mas dá para entender quem é!) Nessa noite deixou-me bem aconchegadinha com a figura daquela senhora junto ao peito. Dizem que faz milagres, eu não sei, a verdade é que tem um elevado número de pessoas, a quem se pode chamar de seguidores e eu considero-me um deles. Digo isto, porque à Eira correm todos os meses centenas de pessoas só para o verem. Não sei se o senhor faz ou não milagres, a verdade é que depois de me deixar aconchegadinha e pronta para a minha última noite dolorosa, dirigiu-se a uma bebé cabo-verdiana, se não estou em erro, que estava muito mal e em coma induzido e deu-lhe a bênção. No dia seguinte a menina estava bem, fora do coma e parecia um passarinho!
  O meu segundo amigo é capelão do hospital, o Pe. Carlos Azevedo, que eu faço questão de visitar sempre que vou ao hospital.
  Assim que comecei a andar, fiz questão de começar a ir à missa. E assim foi no dia seguinte comecei a ir. No final da missa, o padre veio falar comigo, disse que já tinha ouvido falar muito de mim (a minha grande questão é quem não ouviu falar de mim naquela casa?!). Mostrou-se triste por não ter sido ele a fazer-me o aconchego naquela noite, mas quando soube quem o fez mostrou-se bastante satisfeito por não ter atendido o telefone.
  - Aquele homem é uma paz de alma, uma pessoa até parece que levanta voo com aquela paz.
  Estivemos cerca de dez minutos a falar.
  - És de onde? - perguntou.~
  - Torres Vedras. 
  - Hum... e andas em que escola?
  - Externato de Penafirme...
  - Então e não há lá ninguém igual a mim?
  Eu já tinha reparado e sim, de facto são bastante parecidos quase tão parecidos quanto os gémeos, mas são apenas irmãos.
  - Então e foste operada a quê?
  - À cervical.
  - Sabes Marta, nós temos muito em comum - e nesse momento voltou-se de costas de modo a que lhe olhasse para a cervical- E também fui operado ao mesmo que tu!
  Ao deparar-me com aquela situação fiquei um pouco chocada, como é que aparece assim do nada tão perto de mim e de tão perto de mim exatamente com o mesmo problema? Depois senti ainda mais força, se ele ficou bem eu também iria ficar!
  Continuei a ir à missa, tantos dias quantos havia, incluindo o dia 27 de Julho, era a primeira comunhão de uma enfermeira e a bênção das famílias.
  Ao ir pedir a bênção, e antes de me dar, olhou para mim com aquele sorriso único e disse:
  - És terrível, tinhas de cá estar para a bênção das famílias. Já viste quem está ali? É o meu irmão!
  Nesse dia senti-me em casa!

O Tão Esperado Dia

  Neste dia, ao "acordar" (e meto as aspas porque só dormi verdadeiramente na primeira noite!) aconteceu o contrário do esperado. Acordei, levantei-me, tomei o meu estranho banho de todos os dias, tomei o pequeno almoço, fui passear ao jardim, voltei para o quarto e nada! Nem uma pequena gota atrevida o suficiente para me atravessar a face, um pouco a medo! Estranho, porque isso acontecia a maior parte dos dias desde que me sinto mesmo bem e naquele dia isso deveria mesmo ter acontecido, era o dia que pior me sentia. Aquele dia em parte também era meu. E era meu porque em parte me pertencem. Pertencem-me porque pertencem ao meu coração e à minha existência. 
  O facto de eu não poder passar as setas da Estefânia nunca deveria ter sido motivo de pensamento de desistência. Ah, mas parte de mim também estava feliz, não era apenas a revolta que habitava dentro de mim. 
  Havia um pequeno grande motivo para eu ter força e posso dizer que ele foi uma parte muito importante na minha recuperação. Se antes já era tornou-se muito mais no momento daquele pequeno grande gesto. Esse também era o seu dia. Por ele estava feliz. Havia outras duas pessoas que nesse dia me deixavam feliz. Esse foi verdadeiramente o dia deles, o dia de uma família mostrar e unir, mais uma vez, todo o amor que há dentro deles.
  Adiar por não estar presente é uma falsa questão. Eu estive sempre presente. Desde estar na mente dos meus, a estar na mente deles, até ao ponto de ter deixado tudo pronto com todo o amor que há em mim. Posso dizer que me custou muito o facto de não estar presente fisicamente, mas mesmo assim fizeram questão que estivesse presente.
  O relógio quase não andava era hora de jantar. Toca o telefone.
  - Então já és uma mulher casada? - perguntei.
  - Já! -  do outro lado.
  - Qual é a sensação?
  - É boa! - com uma voz bastante feliz - A mãe está aí?
  - Não, foi jantar.
  - Eu ligo mais tarde.
  Confesso que houve uma certa desconfiança perante esta pequena conversa.
   Estava eu a jantar e tive de interromper para fazer mais uma visita ao jardim, estranhamente a meio do jantar, pois "só uma ida ao jardim". Desci a escadaria (sim eu não gostava ter de usar o elevador!), cheguei à entrada do hospital e tive de esperar sensivelmente dez minutos e lá vinham eles todos felizes. A minha mãe pensava que eu ia chorar e as lágrimas fugiram-lhe foi a ela!
  Dei por mim com um bouquet igual ao da noiva, nas mãos.
  - Mas eu só pedi um daqueles raminhos que se metem nos bancos!
  Consegui que os meus amigos fossem tocar, e eu não! Comprei o vestido três meses antes e não o usei! Marquei o cabeleireiro e agora nem suporto que me mexam na cabeça! Não fui, mas estive lá!
  - Ah, ganhaste o ramo da noiva? Agora vais ter de casar n'um ano se não vais ter azar! - Aquele sotaque espanhol dá cabo de mim!