terça-feira, 11 de março de 2014

Voluntariado no Hospital

  Algumas vezes, na enfermaria, recebi uma visita que era comum a todos os meninos da unidade. Eram as voluntárias que estavam ali para me verem e saberem como estava. Pessoas que partilhavam umas horas da sua semana connosco e que tentavam colocar-nos pequenos sorrisos, ou que apenas nos iam fazer companhia na falta de outra. Sim, havia meninos que não eram como eu, não tinham a sorte de ter a mãe sempre com eles e não tinham a sorte de ter uma visita todos os dias. Na verdade eu sempre fui uma sortuda dentro daquele hospital!
  Recordo-me da visita de quatro voluntárias, pelo menos se havia mais voluntárias a passar pela secção de neurologia ou eu estava a dormir ou então foram só mesmo estas quatro que me marcaram verdadeiramente. Digo que me deixaram marcas, mas nem todas foram as melhores, o que importa é que fizeram o melhor que podiam e isso é de dar valor.
  Eram quatro mulheres, andavam sempre em trios, nuns dias vinham três, noutro vinham outras três. Uma delas chamava-se Marta e foi essa que não me marcou tão positivamente, e não, não foi por ter o mesmo nome que eu, porque disso até gosto não há muitas Martas mas naquela secção até havia algumas. Até parece que neurologia é um mal de Martas! Para além da Marta havia mais duas senhoras que andam sempre juntas e ainda uma quarta que, para além de andarem em trios, andava sempre um pouco retirada das outras, esta última marcou-me verdadeiramente.
  As duas senhoras que andavam sempre juntas podiam não ser as melhores pessoas a lidar com os pacientes mais velhos, mas faziam um imenso esforço para nos agradaram, mas com os pequeninos ou com os que tinham problemas neurológicos mais graves eram excelentes. Enquanto que aos mais velhos ofereciam livros para ler, aos pequenos falavam bastante.
  A outra senhora passava bastante tempo comigo, mais comigo do que com todos os outros, quando ia fazer as visitas. Era professora de matemática, logo aí conseguimos criar laços, ela professora de matemática e eu a gostar de matemática (sim sou mesmo fora do normal, eu gosto de matemática, é normal dá-me cabo da cabeça ter de pensar naqueles problemas e disso eu gosto bastante!). Ficava comigo quando a minha mãe não estava. Sentava-se ali pertinho, conversava comigo sobre mim, sobre o que gosto de fazer, sobre a escola, sobre ela, sobre matemática e brincava comigo pegando na minha bonequinha.
  A Marta não me deixou tão boa impressão quanto as outras voluntárias. Ela entrava, perguntava como estava, se precisava de alguma coisa e sentava-se ali a beira da cama a olhar. Por vexes com pena, por outras num mundo completamente distante do meu… Fazia isto à beira de todos os pacientes, provavelmente fazia o melhor que podia e disso eu não me posso queixar, era tempo dela que perdia connosco.
  Lembro-me de outra voluntária, não sei ao certo o que ela fazia no hospital, mas sei que ela ficava na capela e preparava tudo para as celebrações do capelão e ainda lia. Era ela quem cuidava da capela.

  Depois de ver as voluntárias, enquanto estive internada, senti um bichinho enorme de começar a fazer o mesmo tipo de voluntariado. Por enquanto ainda não o posso fazer, uma vez que sou menor de idade, mas assim que atingira maioridade eu faço intenções de passar as minhas férias a fazer voluntariado no hospital de Dona Estefânia, na secção de neurologia e ortopedia. Foi a minha casa durante muitos dias e sei que a casa de muitos meninos e muitos pais e sei também que o mínimo gesto lhes fará a diferença durante a estadia no hospital…

sexta-feira, 7 de março de 2014

(Des)motivação

  Durante o tempo que passei na “minha casa de férias”, a motivação nunca era para aquilo que devia. Devia estar motivada para os exercícios diários e para isso nunca estava. Começava os dias pensando mais positivamente do que aquilo que, normalmente, um doente pensa. Acordava e mesmo que não tivesse motivos fazia um esboço daquilo que era um potencial sorriso. Mentira, eu tinha motivos para sorrir, mais que não fosse o simples facto de estar viva. Pouco importava se ia voltar a andar, já tinha asa minhas memórias para voltar a passear por entre sonhos e ilusões. Se nunca estive motivada para as coisas que devia estar motivada, a culpa é de quem me acompanhava e há um exemplo muito concreto que o demonstra.

  Acordava e pensava num certo bebé. Como é possível haver coisas que se tornam perfeitas no meio de tanta perfeição? Eu não sei sobre isso e penso que mais ninguém o saberá. Não sei, posso estar errada. Também não sei explicar o porquê de sentir isso, apenas sei que sobre mim pairava uma enorme alegria ao pensar naquele pequeno ser de bochechinhas redondinhas e gordas. Era nisto que pensava todos os dias, pensava em só poder voltar à igreja e mesmo apenas passar pela capela do hospital. Não sei se são cristãos, nem qual a vossa ideia de Deus. Eu creio Nele, tenho fé e sentia que devia agradecer-Lhe. Perguntam-se o que queria eu agradecer se nem conseguia andar? Eu explico. É que nem tudo é bom, nem tudo é mau. Eu não sentia as pernas, mas em contrapartida foi possível fazer a remoção total dos tumores e em vez de duas cirurgias tudo se resolveu com apenas uma. Olhar para todas aquelas pessoas à minha volta, médicos, enfermeiros, auxiliares e até a simples empregada de limpeza, todos eram tão bons que sentia a necessidade de nunca ir abaixo, por mim, por ele e por todos eles. Motivava-me o facto de haver tanta gente que se preocupava comigo e que corriam para mim à mínima palavra que proferisse.
  Como tudo tem um lado oposto, também haviam coisas que me desmotivavam. Dou o simples exemplo da fisioterapeuta na UCIP. Eu odiava a fisioterapia, eu todos os dias chorava por causa da fisioterapeuta, eu tinha medo de quando a minha mãe não estava para ver o que ela dizia. Chorava, chorava, chorava. Tentava fazer os exercícios e se não conseguia fazê-los levava com uma percentagem de agressividade que me fazia chorar. Com o enfermeiro João era diferente, ele sentava-se ao pé de mim e quem chorava era ele. Assim que o tabuleiro chegou com o meu lanche, a mãe preparou o pão e ele pôs o pão na minha mão direita e ia ajudando a minha mão a levar o pão à boca. Isso sim motivava-me.
  Ao passar para a enfermaria tive medo de começar a fisioterapia, as a fisioterapeuta era um anjo. Se eu não conseguia fazer os exercícios ela acalmava-me e encontrava sempre forma de eu não perder a vontade de os fazer. Sinceramente eu só fazia os exercícios à frente dela, os que deixava para fim de semana eu nunca os fazia, porém as minhas melhoras eram notáveis de dia para dia. Ela dizia que se continuasse assim eu já não precisava dela para nada e que depois ia para o desemprego. Quando comecei a andar passei para o ginásio da fisiatria e aí fiz questão que a outra fisioterapeuta visse como voltei a andar e como estava a minha mão direita, para que visse bem que eu não precisava de aprender a escrever com a mão esquerda. 
  Eu sempre soube que voltaria ao normal, a exigência nem sempre supera a motivação.