Algumas vezes, na enfermaria,
recebi uma visita que era comum a todos os meninos da unidade. Eram as
voluntárias que estavam ali para me verem e saberem como estava. Pessoas que
partilhavam umas horas da sua semana connosco e que tentavam colocar-nos
pequenos sorrisos, ou que apenas nos iam fazer companhia na falta de outra. Sim,
havia meninos que não eram como eu, não tinham a sorte de ter a mãe sempre com
eles e não tinham a sorte de ter uma visita todos os dias. Na verdade eu sempre
fui uma sortuda dentro daquele hospital!
Recordo-me da visita de quatro
voluntárias, pelo menos se havia mais voluntárias a passar pela secção de
neurologia ou eu estava a dormir ou então foram só mesmo estas quatro que me
marcaram verdadeiramente. Digo que me deixaram marcas, mas nem todas foram as
melhores, o que importa é que fizeram o melhor que podiam e isso é de dar valor.
Eram quatro mulheres, andavam
sempre em trios, nuns dias vinham três, noutro vinham outras três. Uma delas
chamava-se Marta e foi essa que não me marcou tão positivamente, e não, não foi
por ter o mesmo nome que eu, porque disso até gosto não há muitas Martas mas
naquela secção até havia algumas. Até parece que neurologia é um mal de Martas!
Para além da Marta havia mais duas senhoras que andam sempre juntas e ainda uma
quarta que, para além de andarem em trios, andava sempre um pouco retirada das
outras, esta última marcou-me verdadeiramente.
As duas senhoras que andavam sempre
juntas podiam não ser as melhores pessoas a lidar com os pacientes mais velhos,
mas faziam um imenso esforço para nos agradaram, mas com os pequeninos ou com
os que tinham problemas neurológicos mais graves eram excelentes. Enquanto que
aos mais velhos ofereciam livros para ler, aos pequenos falavam bastante.
A outra senhora passava bastante
tempo comigo, mais comigo do que com todos os outros, quando ia fazer as
visitas. Era professora de matemática, logo aí conseguimos criar laços, ela
professora de matemática e eu a gostar de matemática (sim sou mesmo fora do
normal, eu gosto de matemática, é normal dá-me cabo da cabeça ter de pensar
naqueles problemas e disso eu gosto bastante!). Ficava comigo quando a minha
mãe não estava. Sentava-se ali pertinho, conversava comigo sobre mim, sobre o
que gosto de fazer, sobre a escola, sobre ela, sobre matemática e brincava
comigo pegando na minha bonequinha.
A Marta não me deixou tão boa
impressão quanto as outras voluntárias. Ela entrava, perguntava como estava, se
precisava de alguma coisa e sentava-se ali a beira da cama a olhar. Por vexes
com pena, por outras num mundo completamente distante do meu… Fazia isto à
beira de todos os pacientes, provavelmente fazia o melhor que podia e disso eu
não me posso queixar, era tempo dela que perdia connosco.
Lembro-me de outra voluntária, não
sei ao certo o que ela fazia no hospital, mas sei que ela ficava na capela e
preparava tudo para as celebrações do capelão e ainda lia. Era ela quem cuidava
da capela.
Depois de ver as voluntárias,
enquanto estive internada, senti um bichinho enorme de começar a fazer o mesmo
tipo de voluntariado. Por enquanto ainda não o posso fazer, uma vez que sou menor
de idade, mas assim que atingira maioridade eu faço intenções de passar as
minhas férias a fazer voluntariado no hospital de Dona Estefânia, na secção de
neurologia e ortopedia. Foi a minha casa durante muitos dias e sei que a casa
de muitos meninos e muitos pais e sei também que o mínimo gesto lhes fará a
diferença durante a estadia no hospital…
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