segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dezanove Dias Passados

Cheguei a um certo ponto em que dei comigo farta de estar no hospital, não é que me tratassem mal, antes pelo contrário. Em parte até gostava do hospital, não posso reclamar muito, afinal era a única, num hospital tão grande, que podia ir até ao jardim quando quisesse, quantas vezes quisesse.
Ouvi dizer: “Marta, não sejas apressada, aguenta-te por cá o máximo de tempo que conseguires, olha que eu sei o que te estou a dizer!” Vindo da pessoa que era com certeza era verdade e vejo que tinha toda a razão!
Já ninguém aguentava ver-me lá, empregadas de limpeza, auxiliares, enfermeiras, etc. Aparentemente, eu estava bem. Houve um dia que a auxiliar até procurou pelo médico para questioná-lo sobre o porquê de eu não ter alta.
Sempre disse que eu ia ficar por lá para fechar o mês e assim foi. Sei que o médico passou por lá dia 26 ou 27 à noite veio falar comigo e as enfermeiras diziam que os meus papéis da alta já estavam passados desde aí, só que não tinha dado a autorização para eu poder sair.
Estava desejosa de sair mas, por muito pouca vontade que tivesse, tinha de ficar e ter a certeza que ficava boa.
Terça-feira dia 30, pela tarde e como sempre, ia eu para a capela e cruzei-me com o médico:
- Onde é que as meninas vão?
- Olhe doutor vamos à missa, mas precisa de falar connosco? – questionou-lhe a minha mãe.
- Não, era para mandá-la embora, mas vai lá à missa. Quando voltares se tiveres na cama um canudo com um lacinho vermelho já sabes que podes ir embora. Mas se calhar é melhor só ires amanhã, temos ainda que ver a questão dos neurinomas.
Depois disto fiquei toda feliz, é normal ia-me embora da prisão, mas mesmo assim o médio conseguiu deixar-me a pensar o que raio teria eu! Neurinomas? O que raio era isso? Mais tumores?
Sei que me queria vir embora, e que a minha roupa já lá estava, aliás tinha a casa quase toda lá! Em dezoito dias a casa foi-se mudando, lentamente, para a Rua Jacinta Marto, em Lisboa. Até me mandaram uns sapatinhos todos giros, que para serem contraditórios, como tudo naqueles dias, estavam um tamanho a cima!
Eu fui para a missa e quando cheguei nada de canudo!
Passou o dia e finalmente o dia 31! Tomei o pequeno-almoço, o estranho banho de todos os dias, voltei para a cama, acho que antes do almoço ainda fui passear ao jardim, nada muito demorado porque segundo a minha mãe não poderíamos demorar se não o médico aparecia eu não estava e depois ainda não era nesse dia que voltava para casa.
O dia estava bastante quente e bem bonito, estávamos em pleno Verão!
Depois do meu passeio, voltei para o quarto e nada de médico. Até que o cirurgião ajudante decidiu vir-me fazer também uma visitinha.
- O Dr. Amets não pode vir, parece que alguém vai para casa. Tens aqui este papelinho com a marcação da consulta, dás a mãe. O papel da alta, o Dr. dá-vos na consulta. Já podes ir para casa.
Almocei, vesti a minha roupinha e as enfermeiras questionavam-me onde ia. Sim, o Dr. Esteve lá falou com as enfermeiras, mas esqueceu-se de lhes dizer que eu já poderia sair! Mas bom, a senhora enfermeira deu-me o meu boletim de Raio X e a TAC que tinha feito.

Dezanove dias depois estava eu de volta à A8 a caminho de casa!

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