Era dia 31
e lá ia eu de volata a casa, quando cheguei foi uma sensação estranha. O ar era
puro, o barulho escasso, as casas pequenas e aquele enorme frenesim de carros,
pessoas, apitos, etc, desaparecera! Em apenas dezanove dias fiquei a sentir-me
da cidade, e nunca saí do hospital! Ao chegar, vi casas pequenas e antigas,
montes cheios de vegetação, não havia pessoas, não havia carros… “Fogo, eu
realmente vivo num atraso de vida!” – foi este o me primeiro pensamento. Até a
minha mãe se manifestou perante tal expressão que se apoderou da minha face.
-Que foi? Isto
parece-te um atraso de vida?
Essa foi a
minha reação imediata, em apenas dezanove dias, e dentro daquelas grades
enormes, eu consegui começar a pensar como eles, os da cidade! Eu! Eu, a quem a
poluição e os fumos arranham a traqueia, a quem o ruído deixa de ouvir e as
luzes deixam de ver! Mas agora penso: “Ainda bem que vivo num atraso de vida,
isto sou eu!”
A minha
casa já não era minha! Ao entrar nela, senti um ar fresco de casa desabitada, o
meu gatinho, a quem eu chamava de bebé, já não era mais! Ele estava enorme! Eu
adoro aquele gato! Ele quase morreu e eu cuidei dele, eu fiquei de cama e ele
ficou sempre comigo, deitado na minha cabeceira com as suas patinhas suaves
sobre a minha cabeça.
Não era
apenas a casa e a terra que já não me pertenciam, as pessoas também já não eram
as mesmas! Aquelas pessoas a quem dizia, gentil e educadamente e de sorriso na
cara, “Bom dia!”, sem obter uma única resposta, agora preocupavam-se comigo!
Em família,
começara a cansar-me das pessoas. Não podia passar pelos cães porque se podiam
atirar e cair, não podia arrastar uma cadeira porque era pesada, os bebés eram
pesados, nem a escada me deixavam subir tranquilamente! Os cães têm-me um
enorme respeito, mas o que me inervava mais era dizerem constantemente “Cuidado!”.
Arrastar a cadeira era normal, eu tinha de me sentar não?! Os bebés até poderia
passar bem sem os pegar, mas essa ideia alterou-se quando um deles me fez o
gesto para o pegar e ele chorou porque eu não consegui pegá-lo como era
habitual! Agora, a escada… Eu tinha de ir para o meu quarto de alguma forma e
tanto pela rua como no interior só havia escada!
Cá entre
nós, o que realmente me custou realmente foi o facto de ter de depender de
alguém para tomar banho! Do mal a menos, porque poderia passar o resto da vida
ligada a uma máquina, alimentada por sondas e depende alguém a tempo inteiro…
Uma outra
coisa que me doía só de ouvir, era uma palavra que eu raramente uso, talvez
porque tenho medo de a usar ou mesmo porque não a sei usar: “Coitadinha”. Mas…
coitadinha porquê? Agora, em vez de quatro tumores tenho apenas dois, andava
sobre os meus próprios pés, fazia quase tudo sozinha, levo uma vida
completamente normal e… sou coitadinha? Se tinha quatro tumores e não o era,
porque é que o sou com apenas dois? A minha resposta a essa forma de me abordar
das pessoas era muito fácil e simples:
-Eu não sou
coitadinha, estive doente toda a vida e não o era, agora levo a minha vida
normal e não o sou. Tudo o que me aconteceu teve um propósito, nada foi por
acaso, tudo na vida tem um sentido. Se Ele o quis assim para mim, Ele saberá o porquê.
Eu estava
de volta e ansiosa por entrar na minha igreja, parecia enorme, sentia-me uma
formiga lá dentro (como se eu soubesse como é que uma formiga se sente!).
Pus-me a olhar a Cruz e a refletir comigo. “Ele foi torturado, crucificado,
sofreu e morreu. Era isso que estava escrito para Ele, foi essa a vontade de
Seu Pai: sofrer pela remissão dos pecadores. O que ele ia sofrer estava escrito
e tinha um sentido e Ele não era coitadinho! Assim, eu também não o sou! Ele
sofreu muito mais que eu, não existindo tal comparação. Sendo assim, também o
pouco pelo qual passei que seja oferecido pelos meus pecados!”
Tinha
quatro tumores sem saber que os tinha, era feliz, sempre fui feliz, teria de
andar triste e de cabeça baixa agora? Não, se eu era feliz antes, agora devo sê-lo
em dobro. Passei pelo qua passei e esto aqui de pé, não é razão suficiente para
estar feliz?
Voltei e
tinha apenas uma certeza, dia 8 de Agosto estaria de volta à cidade, que agora
também me pertencia!
Sem comentários:
Enviar um comentário