terça-feira, 22 de abril de 2014

O Voltar de um Novo Mundo

Era dia 31 e lá ia eu de volata a casa, quando cheguei foi uma sensação estranha. O ar era puro, o barulho escasso, as casas pequenas e aquele enorme frenesim de carros, pessoas, apitos, etc, desaparecera! Em apenas dezanove dias fiquei a sentir-me da cidade, e nunca saí do hospital! Ao chegar, vi casas pequenas e antigas, montes cheios de vegetação, não havia pessoas, não havia carros… “Fogo, eu realmente vivo num atraso de vida!” – foi este o me primeiro pensamento. Até a minha mãe se manifestou perante tal expressão que se apoderou da minha face.
-Que foi? Isto parece-te um atraso de vida?
Essa foi a minha reação imediata, em apenas dezanove dias, e dentro daquelas grades enormes, eu consegui começar a pensar como eles, os da cidade! Eu! Eu, a quem a poluição e os fumos arranham a traqueia, a quem o ruído deixa de ouvir e as luzes deixam de ver! Mas agora penso: “Ainda bem que vivo num atraso de vida, isto sou eu!”
A minha casa já não era minha! Ao entrar nela, senti um ar fresco de casa desabitada, o meu gatinho, a quem eu chamava de bebé, já não era mais! Ele estava enorme! Eu adoro aquele gato! Ele quase morreu e eu cuidei dele, eu fiquei de cama e ele ficou sempre comigo, deitado na minha cabeceira com as suas patinhas suaves sobre a minha cabeça.
Não era apenas a casa e a terra que já não me pertenciam, as pessoas também já não eram as mesmas! Aquelas pessoas a quem dizia, gentil e educadamente e de sorriso na cara, “Bom dia!”, sem obter uma única resposta, agora preocupavam-se comigo!
Em família, começara a cansar-me das pessoas. Não podia passar pelos cães porque se podiam atirar e cair, não podia arrastar uma cadeira porque era pesada, os bebés eram pesados, nem a escada me deixavam subir tranquilamente! Os cães têm-me um enorme respeito, mas o que me inervava mais era dizerem constantemente “Cuidado!”. Arrastar a cadeira era normal, eu tinha de me sentar não?! Os bebés até poderia passar bem sem os pegar, mas essa ideia alterou-se quando um deles me fez o gesto para o pegar e ele chorou porque eu não consegui pegá-lo como era habitual! Agora, a escada… Eu tinha de ir para o meu quarto de alguma forma e tanto pela rua como no interior só havia escada!
Cá entre nós, o que realmente me custou realmente foi o facto de ter de depender de alguém para tomar banho! Do mal a menos, porque poderia passar o resto da vida ligada a uma máquina, alimentada por sondas e depende alguém a tempo inteiro…
Uma outra coisa que me doía só de ouvir, era uma palavra que eu raramente uso, talvez porque tenho medo de a usar ou mesmo porque não a sei usar: “Coitadinha”. Mas… coitadinha porquê? Agora, em vez de quatro tumores tenho apenas dois, andava sobre os meus próprios pés, fazia quase tudo sozinha, levo uma vida completamente normal e… sou coitadinha? Se tinha quatro tumores e não o era, porque é que o sou com apenas dois? A minha resposta a essa forma de me abordar das pessoas era muito fácil e simples:
-Eu não sou coitadinha, estive doente toda a vida e não o era, agora levo a minha vida normal e não o sou. Tudo o que me aconteceu teve um propósito, nada foi por acaso, tudo na vida tem um sentido. Se Ele o quis assim para mim, Ele saberá o porquê.
Eu estava de volta e ansiosa por entrar na minha igreja, parecia enorme, sentia-me uma formiga lá dentro (como se eu soubesse como é que uma formiga se sente!). Pus-me a olhar a Cruz e a refletir comigo. “Ele foi torturado, crucificado, sofreu e morreu. Era isso que estava escrito para Ele, foi essa a vontade de Seu Pai: sofrer pela remissão dos pecadores. O que ele ia sofrer estava escrito e tinha um sentido e Ele não era coitadinho! Assim, eu também não o sou! Ele sofreu muito mais que eu, não existindo tal comparação. Sendo assim, também o pouco pelo qual passei que seja oferecido pelos meus pecados!”
Tinha quatro tumores sem saber que os tinha, era feliz, sempre fui feliz, teria de andar triste e de cabeça baixa agora? Não, se eu era feliz antes, agora devo sê-lo em dobro. Passei pelo qua passei e esto aqui de pé, não é razão suficiente para estar feliz?

Voltei e tinha apenas uma certeza, dia 8 de Agosto estaria de volta à cidade, que agora também me pertencia!

Sem comentários:

Enviar um comentário