sexta-feira, 7 de março de 2014

(Des)motivação

  Durante o tempo que passei na “minha casa de férias”, a motivação nunca era para aquilo que devia. Devia estar motivada para os exercícios diários e para isso nunca estava. Começava os dias pensando mais positivamente do que aquilo que, normalmente, um doente pensa. Acordava e mesmo que não tivesse motivos fazia um esboço daquilo que era um potencial sorriso. Mentira, eu tinha motivos para sorrir, mais que não fosse o simples facto de estar viva. Pouco importava se ia voltar a andar, já tinha asa minhas memórias para voltar a passear por entre sonhos e ilusões. Se nunca estive motivada para as coisas que devia estar motivada, a culpa é de quem me acompanhava e há um exemplo muito concreto que o demonstra.

  Acordava e pensava num certo bebé. Como é possível haver coisas que se tornam perfeitas no meio de tanta perfeição? Eu não sei sobre isso e penso que mais ninguém o saberá. Não sei, posso estar errada. Também não sei explicar o porquê de sentir isso, apenas sei que sobre mim pairava uma enorme alegria ao pensar naquele pequeno ser de bochechinhas redondinhas e gordas. Era nisto que pensava todos os dias, pensava em só poder voltar à igreja e mesmo apenas passar pela capela do hospital. Não sei se são cristãos, nem qual a vossa ideia de Deus. Eu creio Nele, tenho fé e sentia que devia agradecer-Lhe. Perguntam-se o que queria eu agradecer se nem conseguia andar? Eu explico. É que nem tudo é bom, nem tudo é mau. Eu não sentia as pernas, mas em contrapartida foi possível fazer a remoção total dos tumores e em vez de duas cirurgias tudo se resolveu com apenas uma. Olhar para todas aquelas pessoas à minha volta, médicos, enfermeiros, auxiliares e até a simples empregada de limpeza, todos eram tão bons que sentia a necessidade de nunca ir abaixo, por mim, por ele e por todos eles. Motivava-me o facto de haver tanta gente que se preocupava comigo e que corriam para mim à mínima palavra que proferisse.
  Como tudo tem um lado oposto, também haviam coisas que me desmotivavam. Dou o simples exemplo da fisioterapeuta na UCIP. Eu odiava a fisioterapia, eu todos os dias chorava por causa da fisioterapeuta, eu tinha medo de quando a minha mãe não estava para ver o que ela dizia. Chorava, chorava, chorava. Tentava fazer os exercícios e se não conseguia fazê-los levava com uma percentagem de agressividade que me fazia chorar. Com o enfermeiro João era diferente, ele sentava-se ao pé de mim e quem chorava era ele. Assim que o tabuleiro chegou com o meu lanche, a mãe preparou o pão e ele pôs o pão na minha mão direita e ia ajudando a minha mão a levar o pão à boca. Isso sim motivava-me.
  Ao passar para a enfermaria tive medo de começar a fisioterapia, as a fisioterapeuta era um anjo. Se eu não conseguia fazer os exercícios ela acalmava-me e encontrava sempre forma de eu não perder a vontade de os fazer. Sinceramente eu só fazia os exercícios à frente dela, os que deixava para fim de semana eu nunca os fazia, porém as minhas melhoras eram notáveis de dia para dia. Ela dizia que se continuasse assim eu já não precisava dela para nada e que depois ia para o desemprego. Quando comecei a andar passei para o ginásio da fisiatria e aí fiz questão que a outra fisioterapeuta visse como voltei a andar e como estava a minha mão direita, para que visse bem que eu não precisava de aprender a escrever com a mão esquerda. 
  Eu sempre soube que voltaria ao normal, a exigência nem sempre supera a motivação.

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