No dia seguinte à cirurgia estive de "castigo", não pude comer
nada, só pude comer dia 16 à noite, penso eu, e mesmo assim foi só chá de
cidreira! Mas antes disso apareceu o neurologista para "gozar" um
pouquinho mais comigo, como já era hábito. Primeiro perguntou-me se eu queria
trazer para casa o tubo que tinha no nariz, para remover o suco gástrico e
acrescentou "Se o conseguires tirar com a mão direita podes já
tirá-lo!" Eu não mexia o lado direito do corpo e o esquerdo já começava a
ter alguns reflexos.
- Tu
precisas é de dois bifes com batatas fritas e dois ovos em cima e muito
ketchup! - disse ele.
- Mas
eu não gosto de ketchup!
Ele
sorriu.
Diverti-me a beber o chá, pois ainda estava com o tubo e eu notei que a
enfermeira se tinha esquecido de o desligar para o chá ficar no estômago.
- Mãe,
queres ver o chá daqui a pouco a passar aqui no tubo?
- Ah pois vai ver vai, que eu esqueci-me de desliga-lo!
Um tempinho depois assim foi, o chá passou pelo tubinho e eu fiz picardias à minha mãe com isso.
- Ah pois vai ver vai, que eu esqueci-me de desliga-lo!
Um tempinho depois assim foi, o chá passou pelo tubinho e eu fiz picardias à minha mãe com isso.
A
primeira coisa que eu fiz conscientemente? Foi ver como estava a minha voz, se
ainda conseguia cantar, só depois fui ver se sentia as pernas. No lugar delas
sentia um peso de cinquenta toneladas e nada de pernas.
Comecei
a fisioterapia, nessa semana, assim que o meu lado esquerdo do corpo e a
sensibilidade da pele começaram a mudar. A fisioterapeuta obrigava-me a fazer
tudo o que eu não conseguia, incrível a quantidade de vezes que chorei por
causa dela! Foi a única pessoa em 19 dias que me pôs a chorar, fora a outra
enfermeira mas isso é mais à frente! Fiz exercícios à mão e tive de levantar um
varão até ao peito. Acho que a verdadeira fisioterapia que tive na UCIP foi
quando um dos enfermeiros perdeu a tarde sentado ao pé de mim a obrigar a minha
mão direita a levar o lanche à boca. Eles bem tentavam disfarçar, mas eu notava
aquelas pequenas gotas a escorrer-lhes pela cara.
Finalmente o dia 18, o tempo nunca mais passa, mas hoje é o dia! Lá vem o
doutor, como é hábito todos os dias, sim ele até ao fim de semana vai ao
hospital visitar os doentes! Como já vinha de há um dia ou dois ele perguntava
se era hoje que eu me sentava no cadeirão.
-Hoje te
vais sentar no cadeirão! E vais passar para a enfermaria queres? – disse com
aquele sotaque espanhol.
Lá
chamaram a fisioterapeuta. Mandou que descessem a minha cama toda até abaixo e
que preparassem o cadeirão e disse:
-Eu vou
te levantar, tens de pensar que consegues aguentar, se sentires alguma tontura
eu estou à tua frente e encostas-te a mim.
E assim
foi sentaram-me e tive de me encostar a ela, fiquei mais branca que a farinha e
as tonturas nunca mais passavam.
Fiquei
sentada no cadeirão até que houvesse uma vaga no serviço de neurologia e
ortopedia, até à hora de almoço. Chegou alguém para me deitar de novo naquela
cama minúscula para subir para o segundo andar.
Finalmente na enfermaria!
Sem comentários:
Enviar um comentário