O ano está
quase a acabar e decidi fazer o que a minha mãe sugeriu e começar a escrever um
diário, mas um diário diferente, algo que fosse partilhado, para que todos
pudessem ver. Para que todos os portadores da minha doença o possam ver!
Um
pouco sobre mim:
Chamo-me Marta e tenho apenas 16 anos, à cerca de cinco meses foi-me
diagnosticada esta doença, já nas piores condições. Comecei por ter umas
pequenas dores de cabeça, que todos achavam normal, pois estava em fim de aulas
e o cansaço aperta. Seguiram-se as pontadas no pescoço e dei entrada no
hospital local, onde fizeram um RX onde não havia sinais de nada, por isso
tomei durante uma semana relaxante muscular e Iboprofeno, sob aconselhamento
hospitalar, porém nessa semana deixei de andar e no dia 12 de Julho de 2013 dei
entrada no hospital local pelas 13:15, já em cadeira de rodas sem movimento, de
onde saí muitas horas depois e com um TAC feito. Aí ninguém me quis dizer o que
tinha, apenas que iria ser encaminhada para o Hospital de Dona Estefânia, onde
dei entrada pelas 19:15, para ser vista por um neurocirurgião.
Ao
ouvir isso e visto que não tinha movimento nem sensibilidade na zona do corpo
abaixo da cervical deduzi que deveria ter algo a comprimir a minha medula e
disse à minha mãe e aos médicos que teria de ser operada porque passava-se algo
de errado naquela zona. O médico dizia que só por ser vista por um
neurocirurgião não queria dizer que teria de ser operada, quanto à minha mãe,
ela chorava enquanto eu dizia isso.
Já em
Dona Estefânia, fui vista por uma neurologista pediatra no
serviço de urgência do hospital, a quem contei, algumas vezes, o que tinha
acontecido, para terem a certeza que as minhas ideias ainda eram coerentes.
Seguiu-se uma Ressonância Magnética e depois internamento na unidade de
cuidados intensivos pediátricos, onde um dos médicos ainda vinha a pensar
de que forma me havia de contar o que tinha. Ele aproximou-se e deu-se um
silêncio angustiante, não deve ter durado mais de dez segundos mas pareceu uma
eternidade!
-"Então
minha querida como te sentes?" - interrogou o médico.
- O que
tenho eu na medula? - dei a minha resposta.
O médico
olhou para mim e voltou a pensar o que havia de dizer, "Pois é minha
querida, tens razão, tens uma salsichinha que te está a fazer mal à medula, mas
não te preocupes que nós vamos fazer um pequeno corte e tu vais ficar boa! Mas
não te preocupes que o teu cabelo vai tapar e ninguém vê"
Eu
sempre soube que o corte não seria pequeno nem tão pouco que o cabelo iria
tapar (começa na zona das orelhas e acaba um tanto acima dos ombros) e sempre
estive ciente de que tinha um tumor, na verdade eram dois que estavam a
comprimir a medula. Desde que soube que ia ser operada, passei o fim de semana
a pedir para falar com o padre do hospital, mas ele não pode e felizmente veio
aquela paz de alma do Padre José Cruz falar comigo umas 11 horas antes da
cirurgia.
Finalmente chegou o dia 15 de Julho as 9h fui para o bloco, tive uma noite
horrível e o enfermeiro de serviço não saiu de perto mim até eu ir para o bloco
e já passava bem da sua hora de saída. Ao entrar no bloco, talvez dois minutos
depois, a anestesista perguntou se eu tinha sono e rapidamente disse que não
então ela logo me tentou acalmar dizendo para fechar os olhos e pensar em
coisas bonitas que logo o sono chegaria. Mas eu estava calma, eu sempre estive
calma e ciente de tudo o que me estava a acontecer. Foi então que fechei os
olhos e pensei "Eu nunca mais vou andar, não importa!".
Nove
horas durou a cirurgia e só me lembro de acordar no dia seguinte já na pequena
cama da UCIP.
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